4# BRASIL 21.5.14

     4#1 O PT QUE METE MEDO
     4#2 O MEDO QUE O PT TEM
     4#3 ITAMARATY EM GUERRA
     4#4 O JOGO DO VICE
     4#5 NOME DE LULA APARECE NO CASO BERLUSCONI

4#1 O PT QUE METE MEDO
Contrariando a estratgia eleitoral que levou o PT ao poder com Lula em 2002, campanha de Dilma tenta disseminar o pnico para estancar a queda de popularidade
Srgio Pardellas (@sergiopardellas)

A estratgia de difundir o medo e criar fantasmas na cabea do eleitor para tentar demonizar adversrios polticos costuma ser de altssimo risco. Quando utilizada em campanhas eleitorais, equilibra-se num fio de navalha. Qualquer erro no tom pode ser fatal para a candidatura empenhada em recorrer a esse expediente. O retrospecto histrico, no Brasil e no Exterior, elenca casos bem e malsucedidos da ttica eleitoral de desqualificar o oponente inoculando o pnico.  Mas h uma situao em que adot-la se torna quase um suicdio eleitoral: quando ela confronta o sentimento de mudana reinante no eleitorado. Praticamente todas as vezes em que isso ocorreu, a estratgia se revelou um equvoco e o candidato terminou derrotado nas urnas. Um exemplo clssico de malogro eleitoral assentado na ttica de disseminar o terror em meio a um clima de mudana no Pas ocorreu em 2002, quando o ento candidato Lula, ao encarnar a esperana, triunfou sobre o medo propagandeado por Jos Serra, candidato do PSDB. Na ocasio, o tucano exibiu em seu programa eleitoral a atriz Regina Duarte dizendo temer o repaginado Luiz Incio Lula da Silva e aquele novo PT.  Hoje, a situao se assemelha  de 2002 em relao ao estado de nimo do eleitor. Segundo as ltimas pesquisas, 74% do eleitorado deseja mudana. Anseia que o prximo presidente altere muito ou quase tudo na gesto do governo. Mesmo assim, o PT resolveu arriscar.  Na ltima semana, a campanha  reeleio da presidenta Dilma Rousseff levou ao ar uma srie de filmetes de um minuto de durao nos quais pessoas so exibidas enxergando a si prprias num passado recente, quando no tinham acesso a emprego, escola, sade e lazer. Ao fundo, uma trilha sonora em tom e ritmo lgubres. No podemos deixar que os fantasmas do passado voltem e levem tudo que conseguimos com tanto esforo, afirma o locutor. Nosso emprego de hoje no pode voltar a ser o desemprego de ontem. No podemos dar ouvidos a falsas promessas. O Brasil no quer voltar atrs.

Em suma, o programa petista tenta alardear que, caso Dilma no seja reeleita, as conquistas sociais sero perdidas. O discurso est alinhado com os ltimos pronunciamentos pblicos da presidenta. Dilma tem insinuado, nas ltimas semanas, que os candidatos de oposio Acio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) podem trazer desemprego e arrocho salarial. O objetivo  claro: estancar a queda de popularidade de Dilma a partir da conquista do eleitorado que melhorou de vida, mas at agora se mostrava refratrio  presidenta.  O real impacto da nova estratgia s poder ser aferido com maior preciso nas prximas pesquisas de intenes de voto. Mas a campanha da lavra do marqueteiro do PT, Joo Santanta, avalizada pela cpula do partido em reunio prvia, da qual participaram o ex-presidente Lula, o presidente da sigla, Rui Falco, e o ex-ministro Franklin Martins, j foi capaz de produzir um dado negativo. Nas redes sociais a hashtag #PTmentindoNaTV ocupou o topo dos chamados trending topics (assuntos mais comentados na internet) durante a exibio do programa. Mesmo que o feito possa ser atribudo em parte  guerrilha digital da oposio,  inegvel que, para alcanar tamanha repercusso negativa,  necessrio que o resultado nada alvissareiro para Dilma e o PT tenha sido impulsionado tambm pelo mau humor do eleitorado. Ciente disso, a oposio aproveitou para disparar uma saraivada de crticas ao radicalismo da campanha de Dilma e  sua tentativa de incutir o pnico na cabea do eleitor. Aliado da petista at setembro do ano passado, Eduardo Campos foi o autor do discurso mais contundente. Bolsa Famlia no  conquista de partido nenhum,  conquista do povo brasileiro que ningum vai tirar. Vamos parar com esse terrorismo, com essa falta de respeito de querer discutir o Brasil agora na base da ameaa e do medo. O povo brasileiro no tem medo dessas ameaas, afirmou o socialista. O tucano Acio Neves, por sua vez, ironizou: O medo do desemprego  do PT, que teme perder os empregos que tem no governo, disparou. O cientista poltico Gaudncio Torquato questiona a eficcia da estratgia de tentar disseminar o terror. O terrorismo lingustico que comea a subir a montanha no chega perto das massas. Apenas refora posies de camadas j sedimentadas, diz ele. Campanhas negativas podem at aumentar a rejeio ao candidato que as patrocina, avalia o cientista poltico Jos Paulo Martins Jr., da Fundao Escola de Sociologia e Poltica de So Paulo. O PT, no entanto, d sinais de que, ao menos por ora, no pretende recuar. O vdeo tocou muito a militncia do partido. Vamos virar o jogo, anima-se o vice-presidente do PT, o deputado cearense Jos Guimares

Apostar na manuteno da ttica pode ser um tiro no p. Desde a redemocratizao do Pas, a retrica do medo se revelou bem-sucedida apenas quando a populao, em sua maioria, ansiava pela continuidade. Ou, ento, em situaes em que a ttica fora utilizada por candidatos que personificavam a mudana, nunca pelos que se opunham a esse desejo. Em 1989, a campanha de Fernando Collor aproveitou as declaraes do ento presidente da Fiesp, Mrio Amato, segundo as quais 800 mil empresrios deixariam o Brasil caso Lula ganhasse as eleies, para incutir o medo contra o PT. A ttica deu certo e Collor venceu as eleies. Vale lembrar, porm, que, na ocasio, era o ento candidato do PRN quem representava no imaginrio do eleitor o novo, embora representasse na verdade as velhas oligarquias do Nordeste, e encarnava a mudana desejada pela populao com promessas de acabar com os marajs. Lula, ao contrrio, ainda remetia a Joo Goulart e  funesta consequncia do fantasma comunista: golpe militar e duas dcadas de ditadura. Em 1998, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sagrou-se vitorioso, no primeiro turno, ao disseminar o temor pela volta da inflao.  Na ocasio, entretanto, o ambiente era de continuidade, como em 2010, quando Serra tentou demonizar o PT associando-o s Farcs e fracassou nas urnas. Nas eleies no Exterior tambm so fartos os exemplos da ttica do medo, e os  efeitos de sua utilizao costumam ser semelhantes aos daqui. Em 2008, nos EUA, a vice do candidato Republicano John McCain, Sarah Palin, espalhou o terror difundindo que o democrata Barack Obama atentaria contra direitos individuais. O resultado eleitoral todos sabem.


4#2 O MEDO QUE O PT TEM
Deteriorao das relaes entre o PT e movimentos sociais leva o governo a enfrentar uma onda de protestos e greves pelo Pas. Dilma teme que mobilizaes, engrossadas por oportunistas, se intensifiquem durante a Copa e prejudiquem a reeleio

O governo respirou aliviado na quinta-feira 15 quando fez um balano das greves e manifestaes do dia. Ao contrrio da ameaa de centrais sindicais e movimentos populares de colocarem milhes de manifestantes nas ruas e paralisarem centenas de categorias pelo Pas, os protestos ficaram aqum da expectativa. A barganha s vsperas da Copa do Mundo, que misturou de velhas demandas a mobilizaes oportunistas, parece no ter conquistado ainda o apoio necessrio para inundar as ruas, como seus lderes desejavam. Apesar do respiro momentneo, o governo atravessou a ltima semana com uma certeza e um caminho a seguir na tentativa de debelar futuras ameaas de paralisaes e protestos. A certeza  de que a gesto de Dilma perdeu o controle e a influncia exercida desde o governo Lula sobre os movimentos sociais, como os por moradia e de trabalhadores, historicamente ligados ao PT. No  toa, em Belo Horizonte, servidores pblicos municipais cruzaram os braos e, em Pernambuco, instalou-se um clima de pnico com a greve de integrantes da Polcia Militar e do Corpo de Bombeiros. Em meio  atmosfera beligerante, tanques do Exrcito ocuparam as ruas no Recife. Em So Paulo, movimentos por moradia e grevistas pararam avenidas importantes da capital.

O CLIMA ESQUENTOU - Em So Paulo, integrantes do movimento dos sem-teto protestaram em frente ao Itaquero, ateando fogo em pneus

Diferentemente das manifestaes de junho, porm, quando as depredaes e os protestos foram encabeados por movimentos anarquistas, os chamados Black Blocs, com os quais o Planalto no conseguia estabelecer um dilogo, o governo desta vez ter caminhos e maneiras de retomar o canal de comunicao com os manifestantes. Para a sorte da presidenta, ao contrrio do ano passado, os atuais manifestantes possuem lderes dispostos a sentar  mesa de negociaes.

O que eles esperam  uma mudana de postura do governo. Ao contrrio de Lula, que mantinha um canal direto com as lideranas sociais, Dilma relegou os movimentos a segundo plano. Nos bastidores, dirigentes de centrais sindicais reclamam que a presidenta mostra-se pouco disposta ao dilogo e age de maneira intransigente diante de pautas de reivindicaes. Esse alegado descaso fez com que at a Central nica dos Trabalhadores (CUT), brao sindical do PT, chegasse a reclamar do governo durante a greve de servidores federais em 2012. J a Fora Sindical, segunda maior central do Pas, passou de aliada de primeira hora a ferrenha opositora de Dilma, sendo uma das articuladoras da onda de greves, em que propaga crticas tambm  rea econmica da gesto federal. Este governo no atende os trabalhadores, reclama o presidente da Fora Sindical, Miguel Torres, cotado para vice na chapa de Acio Neves (PSDB) ao Planalto. Por isso, continuaremos nas ruas dispostos a influenciar, mais uma vez, os destinos do Pas, diz ele.

Dirigentes petistas reclamam que Dilma, logo aps assumir, desmontou um poderoso aparato que servia como espcie de termmetro dos movimentos sociais no governo Lula. Com larga experincia nas organizaes de trabalhadores, o ex-presidente havia nomeado para cargos na mquina federal ex-dirigentes da CUT. Eles tinham, na prtica, a funo de atuar junto a movimentos estratgicos contornando crises ou alertando o Palcio do Planalto sobre eventuais focos de insatisfao. Sem esse mecanismo, a presidenta acabou sendo pega de surpresa em greves de servidores e nas manifestaes de junho.

Para sindicalistas e at integrantes do governo, as paralisaes podero se intensificar dias antes do incio da Copa do Mundo. De acordo com uma estimativa da Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), cerca de um milho de trabalhadores iro s ruas, nos prximos dois meses, em todos os Estados. J a Fora Sindical calcula que quatro milhes de trabalhadores se mobilizaro por melhorias salariais e condies de trabalho. A coincidncia entre o perodo da Copa do Mundo e a data-base (negociaes salariais) de importantes categorias, alm do momento eleitoral, deu um forte poder de barganha aos trabalhadores.  uma janela de oportunidade, diz Ricardo Patah, presidente da Unio Geral dos Trabalhadores (UGT), referindo-se s vantagens de se negociar quando do outro lado h o temor de que ocorram greves que prejudiquem o evento ou mobilizaes que atraiam a ateno da imprensa internacional. Outras naes que sediaram os grandes eventos esportivos tambm registraram ameaas de greve. s vsperas da Copa do Mundo de 2010, por exemplo, o governo sul-africano enfrentou paralisaes at de centrais sindicais historicamente aliadas. No Reino Unido, os trabalhadores da rea de servios pblicos tambm ensaiaram uma greve antes dos jogos olmpicos de 2012.

Pressionados pelos sindicalistas e pelos movimentos sociais, a presidenta Dilma e seus auxiliares tentam sufocar essas aes de todas as formas. Nas ltimas semanas, o governo acionou a Justia para isolar uma possvel paralisao na Polcia Federal durante a Copa do Mundo, num movimento estranho  histria do PT. Obteve uma liminar, que multa a representao da categoria em R$ 200 mil por dia de greve e probe os policiais de adotarem a chamada operao-padro ou qualquer outra ao organizada que, direta ou indiretamente, venha a interferir nas rotinas, condutas e nos protocolos estabelecidos e normalmente adotados, no mbito interno e no tratamento ao pblico. S que, em vez de intimidar a categoria, a medida piorou a relao entre os policiais e o governo. Se no tivermos nenhuma resposta positiva do governo, paramos na Copa. Isso vai afetar principalmente os aeroportos, por onde podero conseguir passar procurados pela Interpol, terroristas e outro tipo de gente que no queremos aqui, declarou Andr Mello, presidente do sindicado dos servidores da Polcia Federal no Rio de Janeiro.

Em entrevista s pginas vermelhas de ISTO nesta edio, o ministro da Justia, Jos Eduardo Cardozo, diz acreditar que, a despeito do clima adverso, haver tranquilidade para a realizao dos Jogos. Se houver problemas, a Polcia Federal estar preparada, afirmou. O principal objetivo do governo, no curto prazo,  evitar a todo custo possveis protestos no dia 12 de junho, data do jogo de abertura da Copa, quando movimentos sociais articulam uma srie de manifestaes simultneas no Brasil e no Exterior. A conferir se at l os canais de comunicao com setores historicamente ligados ao PT sero desobstrudos.


4#3 ITAMARATY EM GUERRA
s vsperas da Copa do Mundo, enquanto embaixadas so alvo de vandalismo, funcionrios de consulados do Brasil no Exterior, numa ao oportunista, paralisam atividades e expem inabilidade do Itamaraty para resolver suas questes administrativas 
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

s vsperas da Copa do Mundo no Brasil, o Itamaraty, que deveria zelar pela imagem e diplomacia do Pas que est sob os holofotes do mundo, entrou em p de guerra. De um lado, as embaixadas vivem dias tensos, sob ameaas de ataques de vandalismo e depredaes. Em Berlim, vndalos jogaram pedras na representao brasileira em sinal de protesto contra o evento mundial. Outras embaixadas pelo mundo, especialmente na Europa, reforaram a segurana. De outro lado, o desentendimento do Itamaraty com seus prprios funcionrios exps problemas internos do rgo e uma total inabilidade diplomtica para negociar. Quem precisou de passaportes ou vistos em 13 representaes diplomticas, incluindo Nova York e Paris, se deparou com uma paralisao de 48 horas dos funcionrios que possuem contratos terceirizados. Ao chegar a esses consulados, turistas que pretendem assistir  Copa no Brasil foram informados sobre a greve em sinal de protesto contra a precariedade dos direitos trabalhistas de brasileiros que atuam nesses postos sem vnculos efetivos.

ATAQUES - A embaixada brasileira em Berlim foi apedrejada por um grupo de vndalos na madrugada da segunda-feira 12. Vidraas foram quebradas

A greve, ocorrida justamente quando a demanda por documentos para a entrada no Brasil triplicou por conta da Copa, ao mesmo tempo que se revelou oportunista, lanou luz sobre as dificuldades administrativas do Itamaraty e sua inpcia para tratar com os prprios funcionrios. No h uma norma internacional que regule os contratos entre servidores terceirizados e as embaixadas. O Itamaraty afirma que esses contratos so regidos pela lei do pas onde esto instalados, como determinam a Lei 11.440/06 e o Decreto 1.570/95, e que  impossvel fazer uma negociao global, visto a diferena de mercado e legislao de cada local. Apesar disso, os funcionrios terceirizados reivindicam direitos previstos na lei brasileira, como, por exemplo, 13 salrio, frias acrescidas de um tero e licena-maternidade. O movimento  organizado pela Associao dos Funcionrios Locais do Ministrio das Relaes Exteriores no Mundo (Aflex), organizao que no inclui servidores de carreira que tambm atuam nas misses brasileiras no Exterior, como diplomatas e oficiais de chancelaria. O Ministrio de Relaes Exteriores diz que os auxiliares locais tm todo direito de levar  Justia local eventuais reclamaes trabalhistas ou de cerceamento de direitos, mas que at o momento no h registro de que qualquer contratado local tenha impetrado ao trabalhista no Exterior.

As reclamaes remontam ao ano de 2010, mas, como esses servidores so demissveis, os protestos vinham sendo feitos de forma acanhada. O Itamaraty, em vez de encontrar uma soluo para o problema e debelar a crise l atrs, deixou para negociar na ltima hora. Por isso, teve de enfrentar a situao em momento complicado. De maneira oportunista, esses funcionrios aproveitaram a proximidade com a Copa para intensificar as reivindicaes. O resultado foi a paralisao de servios essenciais, prejudicando quem recorresse s embaixadas e consulados no Exterior. No queramos promover paralisaes. S que chegamos ao nosso limite, diz Claudia Rajecki, presidente da Aflex. Estamos ss e fomos abandonados pelo nosso governo. No Congresso, o grupo  ajudado pelo senador Paulo Paim (PT-RS), que tenta aprovar um projeto de lei no Senado para tornar obrigatrio que representaes diplomticas do Brasil no exterior contratem funcionrios terceirizados com base na CLT.

Durante os protestos registrados na ltima semana, foram afetados os consulados de Nova York, Atlanta, Los Angeles, Hartford, So Francisco e Houston, nos Estados Unidos; de Londres, Montreal, Frankfurt e Bruxelas, alm do consulado e da embaixada em Paris e em Berna. Houve tambm manifestaes nas embaixadas de Roma e Milo (Itlia), Boston e Miami (EUA), Genebra (Sua) e Roterd (Holanda). As representaes diplomticas brasileiras nos Estados Unidos, pas estrangeiro com mais compradores de ingressos para a Copa, tm aproximadamente 340 funcionrios locais, responsveis por atividades como emisso de vistos e passaportes. S em Nova York, o consulado brasileiro dispe de 55 servidores terceirizados. Desses, 28 trabalham no setor consular e atendem uma mdia de 350 a 400 pessoas por dia. No ano passado, segundo informaes oficiais, o consulado em Nova York emitiu 81.767 vistos brasileiros para estrangeiros e 14.013 passaportes brasileiros.

Ao mesmo tempo que tenta reduzir os prejuzos gerados pelas paralisaes, o Itamaraty trabalha para que suas representaes que foram alvo de vandalismo nos ltimos dias voltem  normalidade. Assustados, funcionrios da embaixada em Berlim, na Alemanha, fecharam as portas. Alguns servidores se recusaram a trabalhar nos dias posteriores aos ataques. As depredaes em Berlim foram organizadas por um grupo de dez pessoas vestidas de preto. Elas lanaram cerca de 80 pedras e destruram grande parte dos vidros do primeiro andar do prdio. No perodo noturno, a embaixada conta somente com um segurana da empresa Securitas na portaria. Em nota divulgada em seu portal, a polcia disse que, alm do porteiro, um policial estaria de planto em frente ao edifcio durante os ataques. O site Indymedia publicou a carta de um grupo annimo que avoca para si a autoria do ataque. Para chamar a ateno para o que a Copa do Mundo significa e derrubar a Fifa, fizemos uma ao com as armas mais simples do povo, as pedras. Com as mesmas pedras usadas para sua defesa contra o batalho de choque, ns demolimos a fachada da embaixada brasileira. O manifesto encerra com a expresso Nao (sem o til) vai ter Copa. A embaixada brasileira em Berlim fica situada na rua Wall, no centro da capital alem, numa rea nobre, com hotis, museus e representaes diplomticas de outros pases.


4#4 O JOGO DO VICE
Com Serra praticamente descartado, Acio comea uma maratona de conversas para decidir quem ser seu companheiro de chapa na disputa presidencial
Mrio Simas Filho

Com a candidatura consolidada e com as pesquisas o apontando como alternativa real de poder, o senador Acio Neves (PSDB-MG) ocupar boa parte dos prximos 20 dias para preparar uma das cartadas mais importantes da disputa eleitoral de 2014: a apresentao de quem ser seu companheiro de chapa na sucesso presidencial. A escolha ser oficializada em 14 de junho, na conveno nacional do PSDB, mas Acio j sinalizou que pretende ter essa definio na primeira semana do ms. Entre os tucanos e aliados a disputa pelo posto est aberta e o pr-candidato dar incio a uma maratona de conversas para buscar a maior convergncia possvel. Oportunista, o ex-governador paulista Jos Serra se colocou na briga mesmo sem ser chamado. Escalou alguns lderes para tornar pblica sua nova pretenso, passou a comparecer a alguns eventos ao lado de Acio e, em conversas reservadas, posiciona-se como algum capaz de assegurar a unidade do PSDB e de transferir ao mineiro um elevado nmero de votos em So Paulo, o maior colgio eleitoral do Pas. As investidas de Serra, no entanto, no tm encantado. As principais lideranas do PSDB avaliam reservadamente que a presena de Serra na chapa de Acio traria mais problemas do que solues. Serra  tido por boa parte dos tucanos como carta fora do baralho.

Esse assunto no chegou at mim, desconversa o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, um dos principais entusiastas da candidatura de Acio Neves, quando perguntado sobre o desejo de Serra. Nos encontros fechados, porm, o ex-presidente j se posicionou. Disse a pelo menos trs interlocutores, na ltima semana, que Serra traria  chapa mais rejeio do que votos. Nessas conversas, FHC lembra que Serra foi derrotado em So Paulo, em 2012, pelo petista Fernando Haddad, um candidato que at ento jamais disputara um voto. Alm disso, pesquisas encomendadas pelo partido apontam que quase 50% dos entrevistados afirmam que no votariam no ex-governador de forma alguma. Certamente uma candidatura de Serra a deputado federal  o melhor para ele e para o partido, disse na quinta-feira 15, um ex-secretrio com assento no Palcio dos Bandeirantes. Ele ajudaria a eleger pelo menos quatro outros deputados. Para Acio, no entanto, no  to fcil simplesmente descartar a possibilidade de Serra ser seu vice. O senador sabe que precisar entrar no campo com os tucanos de So Paulo unidos. Por isso, vem garantindo espao no comando da campanha a vrios paulistas e no descarta a hiptese de ter como vice o senador Aloysio Nunes, um dos principais interlocutores de Serra, alm de cogitar a candidatura da deputada Mara Gabrilli, uma das maiores lideranas femininas do tucanato. O que ns sentimos  que o vice ser de So Paulo. O que existe de cristalizado  que a vitria de Acio passa pela vitria em So Paulo, diz o deputado Mendes Thame (PSDB-SP).

Apesar da convico dos paulistas, Acio ainda no est totalmente convencido de que o vice tenha que sair de So Paulo. Entre os nomes que avalia, est, por exemplo, a ex-presidente do STF, Ellen Gracie, que no ano passado filiou-se ao PSDB do Rio. Partidos aliados tambm estono jogo, embora corram como azares. Na tera-feira 13, depois de receber apoio do Solidariedade, Acio recebeu tambm uma indicao: Miguel Torres, presidente da Fora Sindical. Trata-se de um bom nome. Vamos avaliar, disse o mineiro Acio.


4#5 NOME DE LULA APARECE NO CASO BERLUSCONI
Na carta em que extorquia o ex-premi italiano, o jornalista Valter Lavitola, hoje preso, diz que Lula o ajudou num polmico negcio de madeiras na Amaznia. Justia da Itlia j ouviu Pizzolato
Janaina Cesar, de Npoles e Claudio Dantas Sequeira (claudiodantas@istoe.com.br), de Braslia

No fim de abril, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, condenado no processo do mensalo, recebeu em sua cela na penitenciria de SantAnna, em Modena, a visita do procurador italiano Vicenzo Piscitelli. O integrante do MP italiano estava acompanhado de trs policiais. O encontro alimentou especulaes de que Pizzolato estaria envolvido na investigao conduzida por Piscitelli sobre o rumoroso caso do jornalista Valter Lavitola, ex-diretor do dirio Avanti preso por extorso contra o ex-premi Silvio Berlusconi e que responde a processo tambm por lavagem de dinheiro e corrupo internacional. Pizzolato, porm, no foi interrogado na condio de suspeito ou de testemunha, mas como colaborador. O procurador queria sua ajuda para esclarecer um trecho at hoje misterioso da carta em que Lavitola cobra de Berlusconi ajuda financeira. Em trs das 25 pginas do documento, obtido por ISTO, o jornalista italiano fala que recorreu ao ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva para conseguir vender uma rea de manejo florestal que tinha na Amaznia. Nas palavras de Lavitola, Lula provou ser um verdadeiro amigo.

TRANSAO - Em carta encaminhada ao premi Silvio Berlusconi, em dezembro de 2011, Valter Lavitola afirma que recorreu a Lula para negociar rea de manejo florestal na Amaznia. "Ele conseguiu que a direo da empresa compradora fizesse um acordo comigo."

A carta escrita por Lavitola foi encontrada no computador do talo-argentino Carmelo Pintabona, amigo e um dos homens de confiana do jornalista condenado. Pintabona, ento presidente da Federao das Associaes Sicilianas da Amrica do Sul, foi preso em 3 de agosto de 2012, em Palermo. Ele foi indiciado no mesmo processo de extorso, mas acabou inocentado e ganhou a liberdade em maro do ano passado. No depoimento que deu ao MP napolitano, Pintabona disse que Lavitola conhecia bem Lula, de quem falava com frequncia e confirmou a existncia da concesso na Amaznia. Foi o prprio Lavitola que me disse para explicar o porqu do pedido de dinheiro a Berlusconi, pois existia o risco de perder a concesso, disse o empresrio. Na carta, Lavitola d instrues ao ex-premi para que pagasse US$ 900 mil a uma empresa chinesa que teria sido responsvel pelo plano de manejo florestal. Outros 5 milhes de euros (US$ 7 milhes) tambm seriam necessrios para bancar um escritrio de advocacia que cuidaria da arbitragem do negcio.

At decidir se entregar em 16 de abril de 2012, Lavitola permaneceu foragido por oito meses. Segundo Lavitola, naquele momento ningum queria se envolver em negcios com seu nome, por conta do processo na Itlia. Na carta, ele fala que recorreu anteriormente a Lula, o qual se mostrou um verdadeiro amigo, mas que naquele momento, em dezembro de 2011, quando escreveu a carta, j no poderia mais contar com ele. Infelizmente o presidente Lula (que est provando ser um verdadeiro amigo) j no pode fazer muito. Ele conseguiu que a direo da empresa compradora, por meio de uma sentena (obviamente acordada) de um tribunal de arbitragem, fizesse um acordo comigo, escreveu. Em seguida, avalia que os compradores da rea deveriam aceitar uma procurao em seu nome para tocar o negcio, enquanto estivesse impedido por questes alheias a sua vontade.

O caso intriga os procuradores. Eles pediram ajuda a Pizzolato na expectativa de que novas informaes pudessem contribuir para elucidar o caso. Do que  citado na carta, tudo o que apuramos at agora mostrou ter fundamento, diz uma fonte do MP. Quando Pizzolato foi preso em Modena, a Procuradoria Antimfia cruzou as informaes da carta com outros dados e decidiu interrog-lo, considerando sua filiao ao PT e a amizade com Lula. Mas o ex-diretor do BB preferiu no abrir a boca. Procurado por ISTO, Lula informou por meio da assessoria que nunca ouviu falar de Valter Lavitola ou dos outros assuntos perguntados. Vale lembrar que em dezembro de 2011 o ex-presidente estava em tratamento quimioterpico contra o cncer, disse, em nota.

MISTRIO - A carta escrita por Valter Lavitola (foto) em que Lula  citado foi encontrada no computador do talo-argentino Carmelo Pintabona, amigo e um dos homens de confiana do jornalista, que tambm responde  a processo por lavagem de dinheiro e corrupo internacional

No ano passado, o Ministrio Pblico brasileiro e a Polcia Federal entraram no caso, acionados por carta rogatria a pedido da Procuradoria italiana que atua no Tribunal de Npoles. No processo em curso no Superior Tribunal de Justia (STJ), obtido por ISTO, os procuradores pedem a quebra do sigilo telefnico e bancrio de Lavitola, a identificao de propriedades em seu nome, alm de busca e apreenso em diversos endereos. Tambm solicitam a notificao e o interrogatrio de pessoas que seriam laranjas do jornalista italiano em uma complexa rede de empresas de fachada. So eles: Alexander Herdoto Campos, Danielle Aline Louzada e Neire Cssia Pepe Gomes.

ELUCIDAO - No fim de abril, o procurador italiano Vicenzo Piscitelli procurou Henrique Pizzolato, em sua cela da penitenciria de Sant'Anna, em Modena, para tentar esclarecer meno a Lula

At agora, o Ministrio Pblico brasileiro no conseguiu localizar Neire e Danielle. Herdoto deve ser ouvido em breve. Em depoimento s autoridades italianas, em 2012, Herdoto revelou que, alm da concesso de explorao de madeira, Lavitola tinha uma companhia aduaneira, uma imobiliria e duas empresas de exportao de pescado. Os investigadores suspeitam que as empresas teriam sido usadas para lavagem de dinheiro. A Pesqueira Barra de So Joo, alm da Immobiliare Italiana e da madeireira Maremma, ambas situadas em Roma, pertenceriam ao conglomerado econmico Bonaventura Group, com sede em Miami e controlado por Lavitola. Depois que o jornalista italiano foi preso, Herdoto usou documentao falsa para tentar reivindicar a titularidade do Bonaventura. Ele diz que havia acertado a compra do negcio por US$ 5,6 milhes e que Lavitola lhe devia US$ 800 mil. No depoimento, Herdoto acrescentou que, em 2009, encontrou Lavitola numa feira de empresrios em So Paulo. Ele estava com Berlusconi. Fui apresentado a ele. Berlusconi fora convidado como presidente do conselho e estava em companhia de Lula, nosso presidente naquela poca, lembra. De acordo com a investigao, Lavitola, em 2004, vendeu 50% da Maremma para a Wilmar Company, gigante asitico do setor madeireiro.

SILENCIOU - Condenado no processo do mensalo, Henrique Pizzolato evitou incriminar Lula. Questionado, nada falou sobre a suposta ligao entre Lula e Valter Lavitola

